segunda-feira, 23 de março de 2026

O ovo e a leitura

A leitura de Clarice Lispector obriga-me a pensar no sentido da escrita ou, melhor dizendo, se a escrita dá corpo ao sentido ou se procura desfazê-lo - em muitos casos, a escrita avança como se o importante estivesse no preenchimento do vazio... Ao contrário, por exemplo, de Balzac que, nas suas 'histórias de mulheres' as apresenta lineares, como contraponto uma da outra - Renée e Louise.
A coerência é para Balzac um traço fundamental do comportamento da personagem, mesmo se esta age irracionalmente - o desnorte faz sentido. O leitor pode sentir-se cansado por causa da repetição, da previsibilidade, mas não por ausência de sentido...
Clarice Lispector cansa-me, torna-me masoquista, porque como leitor insisto em procurar o sentido de palavras que vão gerando um labirinto cada vez mais sem saída, como acontece com o velho dilema do 'ovo e da galinha'. 
Apesar de tudo, a galinha não pode reivindicar a posse do ovo, porque este não é uma especificiadede da capoeira. Basta pensar no 'ovo da serpente'.
Ocupar o vazio é uma tarefa primordial para quem ainda tem algum tempo, e não quer perder-se nas guerras de ocupação em curso, tão antigas como o ovo - só casca, sem clara nem gema. Por mais que acreditem no contrário, no fim restará sempre o ovo.

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