domingo, 21 de junho de 2026

O pó das prateleiras

Enquanto quem pode não se empenha seriamente na resolução dos principais problemas dos povos e do planeta, eu vou diligentemente limpando o pó aos livros que, cá por casa, fomos acumulando ao longo da vida, e não são poucos e que, sobretudo, datam de tempos em que ainda acreditávamos no valor da leitura...Percorro os títulos e os autores, e fico com a sensação de que estou de regresso a um cemitério de gente que vai caindo no anonimato, apesar do ruído que foram fazendo em vida - alguns!
Confesso que cada vez leio menos, pois o tempo encarregou-se de me afastar dos interlocutores que, por seu lado, já há muito tinham deixado de ler e desaprendido de escrever. Sim, porque de início alguém se empenhou em ensiná-los a ler e a escrever...
Talvez seja por isso que continuo enredado nas obras completas de Balzac e no Latim do Zero, de Frederico Lourenço... outro modo de me fixar nas teias de aranha de que não me consigo libertar... e lá fora, tudo continua cada vez mais quente e mais absurdo.

segunda-feira, 15 de junho de 2026

Por isso me calo

Os dias vão decorrendo, ao que parece, sem pensar. No entanto, a verdade é outra, que mais vale não confessar, não escrever, pois, ao contrário do que se apregoa: dizer não é fazer.
Só a dormir me perco em narrativas inverosímeis, embora labirinticas.
De qualquer modo, há por aí muita boa gente que aposta na magia da palavra, querendo-nos convencer da força dos seus ditos, mas os prejuízos são incontáveis e não deviam ser tolerados e muito menos aclamados... Por isso me calo...

terça-feira, 2 de junho de 2026

Não pensar...

O melhor é não pensar! 
As mulheres de Balzac, no desejo de se emanciparem dos maridos brutamontes, pensavam demasiado, deixando-se cair na fantasia romântica de que ainda havia homens que as servissem abnegadamente... No entanto, o veneno da dúvida estava sempre presente, levando-as a atos definitivos... Nem a alma se salvava, apesar de poucas acreditarem nela.
Vivemos num tempo em que não nos dão tempo para pensar, deixando-nos à mercê de todo o tipo de escrocs, ou, se nos pomos a pensar, perdemos a oportunidade de aproveitar o tempo que nos resta, ao deixarmo-nos esmagar por memórias reconstruídas, à semelhança das balzaquianas.

segunda-feira, 25 de maio de 2026

O calor vem aí!

E eu o que é que vou fazer? Resistir e pagar a conta. 
Quem é que me mandou viver no 12º andar? (o último)
Já comecei a ventilar, mas nem a Sammy acredita na solução, sobretudo sofrendo de hipertiroidismo...

Vou ouvindo as ambulâncias que, provavelmente, nada terão a ver com o incêndio de Vialonga. Ou será fogo? Os velhos procuram refúgio no ar condicionado do Centro Comercial...

A televisão está desligada 
Aquece o ambiente... os comentadores mourinham a toda a hora. Será que o verbo já está registado?
Na Pérsia, nada de novo! Convém notar que a Pérsia é mais vasta do que o Irão...

terça-feira, 19 de maio de 2026

O ecrã anima-se

A compartimentação pode ser boa, mecanicamente. Os especialistas podem ser excelentes no trabalho que desenvolvem, orgulhosamente.
No entanto, quando o objeto é a pessoa, a falta de diálogo pode ser fatal. Talvez, a IA possa resolver o problema da totalidade (do SER), friamente.
Será que seremos capazes de lidar com o rigor de um organismo exterior à condição humana? Desconfio que acabaremos por preferir a depressão coletiva ...
(Diante do ecrã, os utentes começam a ruminar e alongam-se, desesperadamente.)

sábado, 16 de maio de 2026

Procuro...

Procuro o predicado que melhor define o meu estado atual: aceitar, disciplinar, caminhar, zelar, ler, ouvir, tolerar... e, ao longo do dia, eleva-se um enorme cansaço, físico e mental.
Escrever deixou de ser determinante. Fujo dos temas de hoje ou de ontem. porque um muro intransponível me oculta a antiga linha do horizonte.
Entretanto, admiro as árvores secretas de Pequim obrigadas a sofrer a presença dos senhores do mundo. 

terça-feira, 28 de abril de 2026

Leitura de trilogia de Jon Fosse

Há uns tempos, comecei a ler trilogia de JON FOSSE e desisti... Porquê? Não sei.
Entretanto, regressei. E bastaram-me 24 horas para mergulhar nas ruas, nas ondas e na melodia de um violino... 
Num cenário agreste e de solidão, as personagens, quais Maria e José, procuram desesperadamente um quarto onde pernoitar... e vão deixando para trás acontecimentos de que só podemos suspeitar... Jon Fosse poupa o leitor e, simultâneamento, poupa a parturiente... Não há qualquer explicação nem determinista nem sociológica... As personagens vivem do sonho e, assim, evitam interrogar-se sobre o que vai ficando para trás... o que está em causa é o agora.
O agora do amor - da entrega total, à chuva, ao frio e à fome. De que serve olhar para trás? O Velho e Carrasco acabará por repor na Forca a ordem social...
E para lá da Forca, a Vida continua, chame-se Olav ou Jon.

sexta-feira, 24 de abril de 2026

Uma leitura aflitiva

A leitura pode ser maçadora... acontece com frequência, mas insistimos em percorrer o caminho ou, simplesmente, desistimos...

Neste caso, 'Things in Nature Merely Grow' , de YIYUN LI (em português, Tudo na natureza apenas continua) é uma obra assombrosa sobre o modo como a protagonista lida com o luto por dois filhos que se suicidam num intervalo de sete anos - Vincent com 16 e James com 19.

Numa perspetiva de sobrevivência, no fundo do abismo que é a vida dos pais, seguir em frente é, quase sempre, marcar passo. As emoções (os sentimentos) são claramente derrotadas pelos factos e pelos pensamentos. Sem estes é impossível continuar...

Só nos resta continuar, como se apenas fossemos Natureza.... apesar da nossa visão ser demasiado subjetiva, como se nela o ciclo da vida e da morte estivesse ausente. O que cresce também definha.